– Uma noite de 12 anos

Nos primeiros minutos do filme “Uma noite de 12 anos”, a sensação é de claustrofobia quando se acompanha o confinamento de José Mujica, Mauricio Rosencof, e Eleuterio Fernández Huidobro. Os trio Tupamaro passou de prisioneiro a refém e o objetivo da repressão uruguaia vai além de ganhar a guerra porque o inimigo precisa ser esmagado a tal ponto que, na cabeça dele, a morte teria sido melhor.  Aliás, há uma cena em que o médico diz que o fuzilamento dos três seria melhor do que deixá-los chegar àquele ponto de degradação.

Vive-se um tempo em que alguém há de perguntar: “Mas o que eles fizeram?” Como se a tortura fosse apenas um castigo pelo mal que o torturado praticou.  Há outro pensamento atribuindo à tortura uma forma de proteger o povo da ameaça que o torturado representava.  Como se lei, respeito ao direito humano e outras posturas civilizadas signifiquem cumplicidade com o criminoso.   Em “Uma noite de 12 anos”, a discussão central é como uma pessoa sobrevive a essa barbárie de negar a compaixão ao prisioneiro em nome da defesa da ordem, como se a tortura não implantasse a desordem moral numa sociedade.

Antonio de La Torre, Chino Darín e Alfonso Tort têm interpretações que transmitem desesperança mas, ao mesmo tempo, um vago pensamento de que é possível – senão escapar – sobreviver.  Assim os prisioneiros descobrem a comunicação através de batidas nas paredes da cela, um contato com o lado sensível dos carcereiros escrevendo cartas de amor para que enviem às namoradas e conversas disfarçando a dor com as esparsas visitas recebidas.

Durante muitos anos, o Uruguai foi uma referência de democracia para brasileiros.  Havia elogios às leis trabalhistas do país vizinho que seriam bem favoráveis ao trabalhador.  Depois, veio a onda das ditaduras que pegaram Argentina, Brasil, Chile e Uruguai também.  Na década de 80, Flavia Schilling, brasileira acusada de ligação com grupos revolucionários uruguaios, ficou presa em Punta de Rieles (uma das prisões citadas no filme) e provocou mobilização no Brasil por sua libertação.  Brasileiros começavam a reivindicar a anistia aos presos políticos da ditadura nacional e o caso de uma brasileira condenada no Uruguai despertou o interesse no Brasil e Flávia Shilling foi libertada.

José Pepe Mujica, Mauricio Rosencof e Eleuterio Fernández Huidobro sobreviveram, o Uruguai é uma democracia e aquela escuridão que durou 12 anos parece ter passado e, quando o filme termina, a plateia respira aliviada numa clara demonstração de que não quer essa noite de volta.

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