Quem ouve a dor é o ouvidor

 

As ruas do Centro do Rio precisam de atenção.  Para quem sobe a Avenida Passos para chegar à Praça Tiradentes ou segue a rua da Carioca com destino ao Largo de mesmo nome.  Aos que atravessam a avenida Rio Branco ou pegam a rua São José para acabar na Praça Quinze. Em todos os percursos, o olhar de zelo e cuidado é indispensável.

Na rua Miguel Couto, vê-se a estátua do “Pequeno Jornaleiro”, menino vendedor de jornal que sumiu das cidades muito antes da discussão se os impressos estariam condenados à extinção por causa da Internet.

Olha a noite, Olha a noite, Eu sou um pobre jornaleiro, Que não tenho paradeiro, Ai, ninguém tem vida assim, Digo adeus a toda gente, As vezes fico contente, Ninguém tem pena de mim.”

A canção de Heitor dos Prazeres, na visão contemporânea, pode ser interpretada como denúncia de trabalho infantil.

A estátua com essa criança explorada fica numa via que liga a rua do Ouvidor  à avenida Rio Branco.  A primeira tem tal nome porque nela morava o Ouvidor-Mor, o responsável pela Justiça no Brasil colônia. Além dele, havia o Provedor-Mor e o Capitão-Mor. Todos obedeciam ao Governador-Geral, função que a Coroa Portuguesa instituiu para centralizar o poder na colônia.

Na redemocratização (período posterior aos governos militares), empresas do governo e privadas acenaram com um cargo cujo título ‘Ombudsman’ dava um ar de sofisticação.  Essa palavra – que teria origem nórdica – significa o funcionário encarregado de ouvir o público e transmitir as reclamações, as reivindicações e as sugestões aos dirigentes.  O nome caiu no desuso, resgataram o termo Ouvidor e foram criadas as ouvidorias que também são designadas pela sigla SAC, Serviço de Atendimento ao Cliente.

O mais famoso ouvidor que morou na rua que viria a ganhar tal nome foi Francisco Berquó da Silva Pereira, um funcionário público com o ofício democrático de ouvir num Brasil Colônia onde democracia não seria a designação mais exata para a forma de Governo vigente.

Era o ouvidor quem resolvia “demandas”, termo usado em “Memórias de um Sargento de Milícias”, romance de Manuel Antônio de Almeida cujo início informa ao leitor: “Era no tempo do rei…”.  O livro se tornaria enredo da Portela em 1966 com samba de Paulinho da Viola.

Quem ouve a dor é o ouvidor.  Isso desde os tempos do Rei, num Brasil Colônia ainda e não pode ser esquecido por quem passar pela via que liga a Primeiro de Março ao Largo de São Francisco, a rua que homenageia o ofício de ouvir, a rua do Ouvidor.

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