O Relógio da Central, trecho do romance “Um sábado depois do fim do mundo”

 

“Era uma segunda-feira que guardava o mau tempo do fim de semana quando saí de casa com a cabeça estourando. Minha mãe reclamava, papai idem e meu irmão sumira. Mas o que me aperreava de verdade era a araponga da menina retardada do 711. Araponga é uma ave existente no Brasil e no Paraguai que produz um som semelhante ao de um martelo numa chapa de aço. O condomínio já tentara expulsar o bicho, mas a família da débil mental foi a um programa de tevê protestar: ‘Não tirem a única diversão da nossa filha especial’. Um médico (desses especialistas que atualmente aparecem em todos os assuntos) explanou os benefícios que o contato com um animal traz para crianças portadoras de deficiência mental.  A araponga continua lá nas madrugadas, manhãs, tardes e noites. E, naquele dia nublado de recomeço de semana, subi no ônibus porque não viajo de Metrô, não consigo respirar lá embaixo da terra. Prefiro olhar pela janela e ficar vendo prédios, trechos de mar e de céus intrusos na paisagem. E, quando subi no ônibus, vi o relógio, ponto de referência que usava para saltar no meu trabalho. Não há razão para ter referência porque salto justamente na Central, local onde a maioria desce. Mas gosto de ficar esperando o relógio aparecer, ficar mais próximo e então saltar. Era começo de viagem e vi o relógio que representava o final. Aquele relógio que não tem o charme histórico do Big Ben, mas que marcamomentos importantes da cidade. Sem querer, acionei a campainha de parada. O motorista parou. Passageiro saltou. O cara seguiu viagem reclamando baixo. Em pé, no corredor, não queria olhar pela janela, mas não resisti e vi o relógio novamente. Do meu trabalho, ficava olhando o relógio da Central e pensando na hora em que iria embora.O relógio da Central era meu ponto de referência, mas também um símbolo da libertação que o fim do expediente representava. Pensei se tratar de uma alucinação e olhei meu relógio de pulso, acessório que ainda insisto em usar. Quando me perguntam o motivo de portar relógio de pulso se o celular informa a hora, respondo com ironia que se trata de uma homenagem a Santos Dumont que, além do avião, inventou esse marcador do tempo. No meu relógio de pulso, a hora era a mesma do Relógio da Central. O celular também marcava a mesma posição dos ponteiros.  Se era alucinação, como a hora do Relógio da Central batia com a hora do dia?Entrei numa sensação semelhanteà dos sonhos nos quais a gentesabe que está dormindo,mas não consegue acordar. Culpei a araponga da menina especial, a intransigência de minha mãe, a doença crônica de meu pai que, sem conseguir respirar direito, fica o dia inteiro deitado na cama. Eram as aporrinhações do cotidiano que me faziam ter visões. Toquei de novo a campainha. Dessa vez, não deu para passar batido, todos me notaram e me apontaram.

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