– O índio solitário

A imprensa nacional e internacional divulga a notícia de um índio solitário que habita uma região remota no sul do estado de Rondônia.  “O índio do buraco” – por causa das escavações que faz na área onde vive – teve a família exterminada por grileiros e, há 23 anos, está sozinho numa área de 80 quilômetros quadrados na terra indígena Tanuru.

Agentes da Funai filmaram o homem que teria por volta de 55 anos.  Não se sabe se ele fala e é impossível chegar perto porque se trata de alguém arredio.   Quando percebe a aproximação de pessoas, o índio desaparece e a determinação dos indigenistas é deixá-lo viver do jeito que escolheu.

O “índio do buraco” é o exemplo de solidão absoluta numa época em que se fala tanto na integração quando redes sociais aproximariam as pessoas derrubando o isolamento.  No entanto, parece que “índio do buraco” não se sente um solitário e sua recusa em se aproximar dos humanos pode ser interpretada como uma afirmação de humanidade.  Lá em Rondônia, num pedaço de terra distante, depois de ter sido castigado com o extermínio de sua família, o índio pensa em construir uma civilização diferente.    Não esta das crianças sírias massacradas pela guerra, dos africanos perdidos em alto mar, das meninas e meninos das comunidades brasileiras que sobrevivem diariamente à violência, dos que se recusam a aceitar a convivência no Oriente Médio, dos que acenam com soluções armadas para crises criadas por eles mesmos.   No silêncio de quem escolheu não falar mais, o índio caminha sozinho pela selva buscando entender que missão lhe foi confiada.  Afinal, alguém que é o último de uma dinastia não se tornou assim sem razão.  O “índio do buraco” tem de se conhecer porque é a única forma de decifrar os que viveram antes e os que viverão depois de sua solidão na Amazônia.

Há um artista plástico maranhense Edson Mondego que não fala desde o ano 2000.  Mondego convive com pessoas, vai a reuniões sociais e dá até entrevistas.  No entanto, não fala.  Talvez, porque tanta gente já falou tanto e o que ele falar não acrescentaria mais nada.   Mondego pode ser o único capaz de ser aceito num encontro com o “índio do buraco”.  No silêncio cultivado por ambos, se estabeleceria a comunicação dos que se isolam porque se empenham na integração verdadeira, aquela que extingue diferenças.

O último e único habitante na Terra Tanuru, o “índio do buraco” é um alerta de que na solidão distante da selva, a raça humana pode recomeçar e até dar certo.

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