– Mortes sem solução

Jack, o estripador, foi um serial killer que agiu em Londres no final do século 19 cuja identidade nunca foi descoberta.  O criminoso matava e cortava mulheres enviando as partes do corpo para a Polícia.  Houve muitos suspeitos e teorias de quem seria o assassino.  No entanto, a famosa Scotland Yard jamais divulgou a solução dos homicídios.

Na década de 50, Afrânio Arsênio de Lemos aparece morto num Citroen Preto na Ladeira de Sacopã, zona sul do Rio.  O crime teria sido cometido pelo então tenente da Aeronáutica Alberto Jorge Bandeira, enciumado porque sua namorada teve um caso com Afrânio.  O tenente Bandeira se dizia inocente e o assassinato jamais seria esclarecido.  Um dos advogados envolvidos no “Crime de Sacopã”, como ficou conhecido o caso do corpo encontrado no Citroen, seria acusado de matar Dana de Tefé, uma milionária que desapareceria no meio de uma viagem para São Paulo.  Leopoldo Heitor, o advogado que fora coadjuvante no “Crime de Sacopã”, contou várias histórias para justificar o desaparecimento de Dana de Tefé.  Uma delas envolvia uma trama de espionagem internacional já que a desparecida era da antiga Tchecoslováquia e seu sequestro interessaria à União Soviética naqueles tempos da Guerra Fria.  O corpo de Dana de Tefé não foi encontrado e Leopoldo Heitor seria absolvido num segundo julgamento.

Toda vez que se fala no assassinato de Marielle Franco, vereadora executada no Centro do Rio junto com seu motorista, os que não concordam com a ideologia do partido dela lançam mão do argumento que há muitos crimes insolúveis e seria injusto só se preocupar com a morte da parlamentar.  Com a vitória da Mangueira no carnaval de 2019 num enredo que citava a vereadora, a revolta voltou a se espalhar nas redes sociais, nas seções de cartas de leitores e nos debates entre direita e esquerda que ainda assombram a realidade brasileira.

Por que não falam de Celso Daniel? O assassinato do prefeito petista de Santo André, em 2002, é o mais lembrado embora existam condenados cumprindo pena pelo crime.  O caso tem pormenores sem esclarecimento, testemunhas assassinadas inexplicavelmente e um assessor de confiança que morreu de câncer.  No entanto, não ficou insolúvel.  Embora insistam em acusar líderes do PT, nada ficou provado.  Há uma figura que teve expressão no partido e, atualmente, faz delação.  Por que os que citam tanto o crime não aproveitam e tentam esclarecer tudo com o dedo-duro?

Um assassinato que pouco se fala é o de Antônio da Costa Santos, o Toninho do PT, morto quando exercia o cargo de prefeito de Campinas em 2001.  O caso foi arquivado e a suspeita é de que, ao enfrentar o narcotráfico campineiro, Toninho teria sido executado. No entanto, há quem garanta que o crime foi político e, por isso, nada se apurou.

Portanto, crimes sem solução existem e tal constatação não deve ser usada para questionar a justa reivindicação de punição para os assassinos de Marielle Franco.  Isso é um direito da família, uma satisfação à população e um dever do Estado.  Não se trata de corporativismo de uma suposta imprensa impregnada de esquerdistas ou egoísmo de partidos políticos que só olhariam para o próprio umbigo quando o caso envolve violência contra um de seus integrantes.

Correu até um boato de que o assassinato de Marielle Franco só teria o anúncio de solução depois do carnaval para que o desfile da Mangueira não fosse prejudicado.  Se alguém entender o que isso significa, que explique.

Mais surpreendente é que, além de enumerar crimes insolúveis, há gente achando um absurdo se falar na morte de Marielle enquanto há tantos outros homicídios por aí.

Qualquer dia, alguém vai dizer que só falam na morte da vereadora.  Afinal, Caim matou Abel e a mídia não diz nada.

Projetos recentes