– Fiscais da negritude

 

Os protestos contra a escolha de Seu Jorge para interpretar Marighella partiram dos que têm antipatia pelo guerrilheiro.  Com raiva porque Wagner Moura escolheu um ícone da esquerda brasileira para contar a vida na tela, os antimarxistas e defensores da direita no poder não aceitam um negro no papel do opositor às ideias direitistas.   Gente que contesta ter existido ditadura militar no Brasil não engole um afrodescendente encarnando Marighella.   Por que?

Segundo Mário Magalhães, autor do livro que inspirou o filme, Marighella não era branco e teria sofrido ofensas racistas.  Mulato, mestiço, pardo ou moreno seriam “classificações” mais adequadas para a cor do guerrilheiro.  Assim, falam os que não aceitam a negritude do personagem no filme de Wagner Moura que é acusado até de ter imposto a condição de baiano para participar da produção.  Seu Jorge é de Belford Roxo, cidade da Baixada Fluminense, Rio de Janeiro.

Por que a negritude cinematográfica de Marighella incomoda quem não deveria sequer mencionar o filme porque detesta o personagem principal?  Com certeza, essas pessoas não irão a qualquer exibição da película.  Só teria sentido o comparecimento desses grupos se ficassem na porta do cinema tentando evitar que o pessoal interessado em ver a vida do esquerdista (ou seria esquerdopata?) entrasse, sentasse na poltrona e compartilhasse a história na versão de Wagner Moura.  Aliás, o diretor já foi bem aceito por essa parcela da população quando interpretou um militar do Bope.  Hoje, é acusado de sabotador do Governo que foi eleito para salvar o país da corrupção que os “comunistas” implantaram.

Os “Inconfidentes”, Joaquim Pedro de Andrade, tinha José Wilker, louro e sem barba, interpretando Tiradentes que é retratado com barba e cabelos escuros.   Roberto de Niro fez um Al Capone em “Os Intocáveis” de Brian de Palma.  Basta olhar fotos do gangster para perceber que em nada se parecia com o ator.    Jarbas Homem de Mello com um metro e oitenta de altura incorporou Chaplin numa peça, o inglês não chegava a um metro e setenta.  A diferença de tamanho entre Chay Suede e Erasmo Carlos também é grande e o ator interpreta o cantor em “O Tremendão” de Lui Farias.

Portanto, exemplos de artistas que nada tinham de semelhante com personagens que retrataram são inúmeros.  Isso porque uma obra precisa de verossimilhança (ligação, nexo ou harmonia com os fatos), mas nem sempre é uma cópia exata da realidade.  A exigência de fidelidade entre realidade e ficção gera polêmicas inacreditáveis como a que envolveu Fabiana Cozza, considerada “clara demais” para ser Dona Ivone Lara.

Por que Seu Jorge não pode interpretar Marighella? O que um negro no papel de alguém que enfrentou a ditadura civil militar implantada no Brasil em 64 incomoda?  Até entendo as acusações de que o filme exaltaria “um traidor”, “um assassino” e etc.   Mas por que a negritude de Seu Jorge causa tanta revolta?  Por que o ódio a Wagner Moura?! Por que a comemoração pelo filme não levar prêmio no estrangeiro?  Que dimensão Marighella adquire no imaginário da população ou na história do país ao ser retratado como negro?

Se algum fiscal da negritude souber explicar.

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