– É hoje só.

 

   Noel Carlos, comediante que fazia sucesso na tevê personificando um bêbado cujo apelido era “Pudim de Cachaça”, cantava a marchinha:

“Tô.. Tô… Tô com o diabo.

Eu hoje me acabo.”

O carnaval tinha esse objetivo: se esgotar, pular até não ter mais forças.  A festa era não só para esquecer a realidade, mas para mergulhar no caos sem cuidado ou hesitação, única forma de escapar da mesmice do cotidiano.

Por isso, havia o refrão:

“É hoje só, amanhã, não tem mais.”

Naqueles carnavais, o corpo e a mente eram flagelados – não para se livrar do pecado como nos rituais religiosos – mas em nome da alegria.   Isso porque, a dor de se acabar na efervescência carnavalesca, anulava o sofrimento maior do dia-a-dia.

O folião saía de casa no domingo e só voltava na madrugada de quarta-feira totalmente acabado como em “Camisa Amarela” de Ary Barroso.  A mulher recebe o homem que se atira na cama sem tirar nem o sapato, ronca uma semana, acorda mal humorado e toma bicarbonato.  No entanto, para a felicidade dela, acabou a folia, o homem queima a camisa amarela com que brincou todo o carnaval e volta a ser da mulher que o acolhe quando volta cansado da farra.  Eram os homens que se acabavam na festa e, às esposas, restava a função passiva da espera.

Além do desespero de aproveitar o carnaval como se nada mais restasse no mundo, o evento proporcionava realização de sonhos.  As músicas falavam no homem comum que virava rei, da mulher pobre alçada à nobreza porque desfilava como porta-estandarte na avenida.  Tudo terminava na quarta-feira como Vinícius de Moraes contava na letra musicada por Antônio Carlos Jobim:

“A felicidade do pobre parece/ A grande ilusão do carnaval/ A gente trabalha o ano inteiro/ Por um momento de sonho/ Pra fazer a fantasia De rei ou de pirata ou jardineira/ Pra tudo se acabar na quarta-feira.”

Portanto, o carnaval se equilibrava entre o folião que buscava seu próprio fim e o sonho da gente comum que terminava no fim do carnaval.

Atualmente, a festa não tem mais essa dualidade.  As pessoas já se acabam um pouco em cada dia do ano e os sonhos vão mais além do que ser rei ou rainha nos dias carnavalescos.  A ameaça agora é o fundamentalismo religioso que conquista o poder político.  Em nome da verdade bíblica, esses profetas não querem se acabar na folia nem alimentar sonhos que acabam na quarta-feira.  O negócio deles é acabar com o carnaval mesmo e, enquanto no púlpito soltam o verbo contra a folia, na gestão pública seguram a verba.

Quem diria que, um dia, o carnaval acabasse assim.

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