– Bom domingo

Desce do elevador, passa pela portaria e ouve do porteiro.

– Bom domingo.

– Obrigado.  Tenha um bom domingo também.

A saudação do porteiro remete ao passado quando ia à feira com o pai nas manhãs do dia posterior ao sábado.  Em cada barraca – ao chegar para a compra – o feirante desejava um bom domingo.  Um incentivo p

ara que o dia do descanso fosse tranquilo além de feliz.  O pai comprava a galinha ainda viva que seria sacrificada para o almoço e o menino ficava proibido de ver a hora em que o pescoço da penosa fosse cortado e o sangue escorresse enchendo uma vasilha.

– Lá se foi um domingo.  – repetia a mãe desfazendo a mesa do almoço.

Ainda tinha a missa das seis, mas para ela, o domingo já terminara e vinha a tarde mergulhada em tédio quando o vizinho tocava “Sentimental” de Jair Amorim e Evaldo Gouveia.

“Romântico é sonhar. Eu sonho assim. Cantando essas canções para quem ama igual a mim.”

As tardes de domingo incomodam quando se desfiam os males de amor.

Mas, por que desejar bom domingo e nunca boa segunda-feira muito menos boa terça, dia insignificante espremido entre a segunda e a quarta, meio da semana.   Na segunda, o desejo é de boa semana, um estímulo para que venham dias felizes até sexta quando se desejará ótimo final de semana com grande sábado e bom domingo.

Há povos que desejam bom sábado, outros, boa sexta.  Todos relembram o Dia do Senhor quando Ele descansou.  Por isso, é preciso respeitar domingos, sábados e sextas, dependendo qual das três religiões monoteístas se pratique.  E, nesses dias, há quem sequer aperte o botão de um elevador porque qualquer tarefa soa como desafio ao descanso do Criador.

Certa vez, quando estava num plantão dominical, deixou escapar que não havia nada pior que trabalhar aos domingos.  Um colega mais velho disse que estar desempregado é muito pior e falava isso com a experiência de quem passou muitos domingos sem emprego.

As pessoas caminham na orla, muitos bebem nos quiosques e bares.  Um grupo toca e canta para depois passar o chapéu.  É um domingo comum cuja manhã se transformará em tarde e a tarde se fará noite.  Os sentimentos num domingo são: esperança pela manhã, tédio, à tarde; desesperança, à noite.  Desesperança porque virá a segunda e nada se pode prever nos dias seguintes.

Ao voltar, na portaria, há outro funcionário cuja aparência jovem chama atenção e que faz pequenos serviços de eletricista no condomínio.

– Bom domingo, Sílvio.

O porteiro faz sinal de positivo com dedo.

Que bobagem desejar isso, pensa ao entrar no elevador com impressão de que o domingo é um dia que definitivamente foi embora.

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