– Armas do passado

Na minha infância, andava-se armado.  Isto é, as crianças tinham cartucheiras com armas de espoleta imitando heróis dos filmes de cowboy. Essa desculpa é usada para a justificativa de que armas não formam assassinos porque, se assim fosse, a minha geração, por exemplo, seria de homicidas.

Meia  verdade porque os heróis daquela época eram mocinhos que não tinham a compulsão de matar. As armas eram usadas como defesa e tiros acertavam as mãos dos bandidos.  O mocinho dava um tiro e a arma do inimigo ia longe.  As pessoas comentavam que os heróis “só matavam em último caso”.  Havia um seriado “O homem do rifle” que era elogiado porque o personagem principal, sempre acompanhado do filho pré-adolescente, ensinava que não se devia sair por aí dando tiro.

Outro herói, o Zorro (não o de capa e espada, mas o que vivia acompanhado do índio Tonto) usava balas de prata.  Portanto, deveria usar a arma com moderação porque, cada bala de prata, custava muito.

Os valores daquela infância eram diferentes e a arma não era considerada  instrumento de destruição.

Havia contestações e sugestões de que os revólveres não fossem tão semelhantes aos de verdade.    Porém, a garotada andava com aquelas cartucheiras com suas armas sem objetivo de matar.  Uma brincadeira nada comparada aos jogos virtuais que circulam por aí.

Outro dia, passei por uma rua e vi um jovem (talvez, no máximo, 20 anos) com um fuzil orientando o trânsito nas proximidades de uma comunidade.  Um caminhão de gás afunilara a rua e ele (enquanto um comparsa ficava também de fuzil na calçada) dava as ordens para os carros passarem cada um em sua vez.  Em volta, a vida seguia inalterada com um mercadinho, crianças voltando da escola e ninguém parecendo se importar com a presença armada do rapaz.  Entre aquela infância que andava com armas de brinquedo na cintura e essa juventude com fuzil de verdade há um abismo onde ficaram todos os valores dos “heróis de ficção que só matavam em último caso”.

Atualmente, mata-se sem razão ou motivo.  As balas não são de prata como as do Zorro mas, embora caras; não há economia em usá-las.  Entrar por engano num território ocupado por bandidos pode custar 70 tiros facilmente.  Afinal, o carro cujo motorista seguindo o GPS seguiu aquele caminho pode esconder invasores prontos a avançar no terreno com intenção de dominar as bocas.  Ou milicianos que – em nome da ordem – fariam o combate que o Poder Público – por algum motivo- não faz.

Entre as armas do passado que não criaram gerações de criminosos e estas que formam bondes há uma diferença.  Principalmente, porque aquelas crianças que andavam com revólveres de espoleta nas cartucheiras frequentavam escolas, tinham outros exemplos e vislumbravam oportunidades.

É preciso pensar nisso antes de defender a distribuição de armas à população.

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