A herança de Walt Disney (trecho do romance “O Terceiro Cúmplice”)

 

Minha mãe era pequena quando minha avó chegou em casa com a novidade de que Walt Disney deixara uma herança para todas as crianças pobres do mundo.  Como prova de carência financeira, a criança precisava ser matriculada numa escola do governo e – mesmo minha avó rejeitando a ideia de assumir o estado de necessidade – concordou em incluir a família no rol dos com direito à herança do artista. Meu avô – se preparando para ir à repartição – ponderou que seria impossível uma herança tão grande para todas as crianças pobres do mundo.

– Ele era podre de rico, homem! Nem sabia onde tinha dinheiro. É herança para todos os pobres do mundo e ainda sobra para os remediados brasileiros.

Quando a mãe da minha mãe defendia uma opinião, era difícil contestar.  Naquela época, as escolas públicas tinham bom conceito e o acesso aos colégios governamentais era feito através de provas difíceis. Ser aluno de uma delas não representava indigência financeira, o que provocava uma discussão de que a seleção deveria ser feita de outra forma para garantir vagas aos desfavorecidos. Mamãe até tinha um colega de classe – o Zé Antônio – que era filho de um comerciante português, dono da mais movimentada padaria do bairro.  A família dele morava numa casa confortável e fora uma das primeiras a circular de Galaxie, um carro nacional fabricado com a imponência dos hidramáticos importados.  Hidramático era o nome que se dava aos automóveis nos quais não se precisava passar marchas.  No entanto, segundo minha avó, a exigência de matrícula numa escola pública era para garantir a democratização na distribuição da herança.

– Eu vou entrar na fila do cadastramento. – disse vovó enquanto dividia as tarefas.

Minha mãe ficaria guardando o lugar, porque já tinha muita gente lá. O irmão dela iria fazer a rendição e vice-versa. Na hora de assinar a papelada, minha avó tomaria a frente da empreitada.

E assim foi feito. A fila na porta da escola para se inscrever na herança de Walt Disney era grande na manhã daquela, talvez, quarta-feira. Porém, quando a tarde emendou com a noite, a fila ficou imensa.

Minha mãe e meu tio se revezaram na fila. Minha avó tomava o lugar para que os dois almoçassem, lanchassem e jantassem. Durante a madrugada, sobrou para meu avô. Ele e outros tantos dormiam em camas dragoflex, utensílio portátil parecido com aquelas de campanhas militares.

Quando as filas atingiram quase três dias de existência, começaram as notícias de que a informação não era procedente.  Na imprensa, começou a divulgação dos desmentidos.  O empresário e artista americano não deixara qualquer herança para ser repartida. O secretário de Educação pedia que as pessoas voltassem para casa. Até o governador fez um pronunciamento, pedindo que não acreditassem naquela história sem qualquer sentido. A população ficou desconfiada. A opinião unânime era de que o governo queria ficar com o nosso dinheiro e – conhecendo diversos governos como hoje conheço – dou razão a esse ponto de vista.

– Ele nadava em dinheiro e pensou no bem das crianças. Afinal, foram as crianças que ajudaram ele! – disse Dona Janete, uma das que mais ansiavam pela herança.  O marido ficara doente e não trabalhava mais.  Paulo César, o filho com direito ao benefício, era um menino triste, sem brinquedos, e que vendia gibis na feira.  Gibis, assim se chamavam as revistinhas do Mickey, Pateta, Donald e outros personagens de Walt Disney.  Se Paulo César recolhia uns poucos trocados vendendo gibis da Disney, contribuía e muito para a riqueza do império. Um tijolinho qualquer fora comprado com algum centavo de direitos autorais oriundos da venda de Paulo César. Assim pensava dona Janete, que não arredaria o pé da fila enquanto não se cadastrasse.

Não sei em quanto tempo o ânimo da tropa se abateu e teve início a debandada. Minha mãe já não ficava na fila nem o irmão dela.

– Acho que não tem herança nenhuma. – lamentou minha avó.

As filas foram se dispersando, os comentários se tornaram esparsos e o pessoal voltou para os afazeres comuns.  Até dona Janete admitiu que a herança era um sonho.

No entanto, mamãe cresceu guardando uma ponta de crença naquela história. Principalmente, depois que leu sobre o corpo de Walt Disney congelado num Centro de Estudos Médicos dos Estados Unidos. Quando a ciência descobrisse a cura definitiva da doença que o matara, ele seria ressuscitado. Até hoje, quando mamãe suspira – acho que pensa na ressurreição de Walt Disney com esperança de receber não a herança, mas a recompensa.

No entanto, mesmo tão crédula na Mausy mamãe teve de admitir que a previsão dessa vidente foi correta pela metade.  Eu fiquei um bom tempo com Marcela num lar até feliz.  A menina com a estrela de David no tornozelo é que seria o pretexto para a separação.